sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Da diluição ao Estado gasoso.




Uma das maiores mentiras contadas desde o início desta governação encabeçada pelo PSD e pelo CDS-PP não é a de que temos primeiro-ministro, não é a de que existem licenciaturas algo obscuras, não é a de que existe gente capaz, minimamente instruída e prudente para entender processos simples de uma economia funcional; o dado mais falacioso desta governação é a de que existe coligação.

Todavia, de onde nasce essa carência de coesão? Numa análise superficial, talvez o mais fácil de discernir seja que, por imposição da relação pelouro-durabilidade-conjetura, as sinuosas posturas dos dois maiores representantes de cada partido os injungem a uma alienação do trabalho forçoso de equipa, de equilíbrio e confiança. Verdade seja referida, sem a tranquilidade necessária nesta situação, o povo insurge-se em desconfianças e protestos.

Ainda assim, aprofundando melhor essa atitude, a verdade é que, num tempo manifestamente de crise, nenhum bom político ou partido experiente, se vai dar ao luxo de se fazer ver com propostas capazes e com, acima de tudo, coerência e flexibilidade moderada. Os tempos não são disso, pelo menos na reflexão das quezílias, muitas das vezes premeditadas, que encabeçam as grandes forças político-partidárias.  

Qualquer líder político, neste momento, revela falências gritantes para altos paladinos da crise socioeconómica que se propõe a ser: António José Seguro, embora tenha um discurso calmo e direcionado, revela-se um estratega, um homem do backstage que, pela pressão a que está sujeito, comete algumas precipitações evitáveis; Jerónimo de Sousa mantém o seu discurso, advertindo, desse modo, que os usos e costumes deste nosso faz-de-conta que é Portugal persiste em demonstrar, contudo, como rosto contínuo de uma luta ingrata, vai revelando algum cansaço e desgaste; Francisco Louçã abandona o barco, dando azo a uma reflexão acerca da sua autoimagem que, no global da situação, faz antever um homem que se agigantou num partido, divertiu-se a fazer pouco daqueles que, alimentando-se de curvas de decisões, pouco ou nada tinham a acrescentar ao progresso político, social e económico deste país e que, quando o baloiço enferrujou e as alternativas eram prioritárias, abandonou o barco e dedicou-se a algo sério; por fim, Pedro Passos Coelho que, talvez pela sua maior exposição, patenteia um dos mais falidos políticos de que há memória neste reduto espairecido da Europa: carece de uma afinidade com os seus parceiros políticos, no caso específico e mais revelador da falta de entendimento entre as partes governamentais, o CDS-PP e Paulo Portas, um homem hábil de movimentos e discurso, mas fraco de ideologia e soluções. Um político que se consome em alternâncias de culpa em momentos chave da crise portuguesa é, na melhor das hipóteses, um crápula movido a interesses próprios

Pedro Passos Coelho também revela uma aptidão para o discurso, principalmente se ele for isento de coerência e argumentação, contudo, a maior das culpas de Passos Coelho é que, devido a isso coloca não o país à beira da crise política, mas sim, a crise política à beira do país, na medida em que, medidas completamente descabidas e sem um propósito expectável, forçam homens próximos ao Primeiro-ministro como Miguel Macedo e António Borges a criarem atritos com o povo que os coloca, indiretamente, no poder, dizendo barbaridades de quem se esquece, momentaneamente, que é um servidor do povo, não um autoritário do povo e, outros elementos do próprio partido como Marques Mendes (que revelou, anteriormente, uma postura contígua a PPC), Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa a desmarcarem-se, prontamente, das políticas levadas a cabo pelo governo. 

Essa instabilidade intrapartidária promove uma desconfiança entre os eleitores, agravada pelas medidas danosas de austeridade que, até para o Senhor Manuel da mercearia (sem qualquer desprimor), soam a lodos: quem mata o poder de compra, mata a circulação de dinheiro.

Ainda a isso se juntam a passividade de um Presidente da República que, somente em período de eleições e lamúrias dá sinais de si, a massificação de qualquer espaço, dando como exemplo a extinção de freguesias, o aumento do número de turmas ou os Mega agrupamentos e, ainda, a falta de esclarecimento no que concerne à atividade da nação: quem somos, como estamos, para onde vamos… 

Assim, no global da situação, a destruturação dos órgãos que, em período austero, deviam revelar estabilidade e direção, demonstram fraqueza de espírito, nepotismo e falta de rumo, adivinhando um suicido a médio prazo. Portugal trata-se de um país que se quer livre no conservadorismo e tacanhez, capitalista sem o poder de movimentar dinheiro e, acima de tudo, uma potência com mentalidade de casa postergada e infame. 

Aquele.

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