Eu, porque existo. Tu, porque me criaste.
Dizer quem tu és torna-se inútil, o teu processo académico fica guardado nos doutores de química a quem tu apelidas de "monstros tóxicos", porque ninguém pode saber tanto das "tretas modificadas que nos matam" sem tentar controlar-nos.
Dizer quem tu és torna-se absurdo, o teu espaço na minha existência fica guardado para sempre entre nós. Tivemos o Francisco em comum, tivemos os nossos quarenta anos de diferença em comum. Sempre soubemos ser as crianças que pretendias que fossemos, sempre tentámos ser os adultos que quis sermos.
Dizer quem tu és, nem eu sei. Apenas te agradeço, meu filho.
Passo, para concluir, a transcrever a carta que me enviaste e que recebi, hoje, por correio:
"
Sentei-me, hoje,
naquele jardim de frios que é a nostalgia. Voltei a conhecer um agora homem,
como se ele já tivesse partido e eu, ingénuo, continuasse a fazê-lo permanecer na
minha memória. Se calhar nunca existiu como o imaginei, se calhar nunca deixou
de existir como o vejo.
As horas sentados
no chão a decorar os mundos por construir já passaram. Ele era criança de
espírito e de corpo, fingia conquistar o mundo e pouco o conhecia, achando que
era tudo fácil se acreditássemos.
Os momentos
mergulhados em tédio e medo dissiparam-se. Era como se naquela adolescência
recente tudo se assemelhasse a um fim negativo, sem grande reforço de ideias.
No fundo, aquilo que temos, é aquilo que é. Parecia tudo tão limitado, tão
concreto.
Os instantes de
sonho, aquele palpitar de peito era entusiasmante, parecia que se ia diluindo a
falácia de crescer e ressurgia, agora mais em chamas, a criança amadurecida com
que brinquei. Começámos a contactar de modo diferente, agora existia uma
equivalência de Proust nos desabafos, um entendimento real e dúvidas, cada vez
mais magnas e elaboradas. A verdadeira idade dos porquês existiu aí, agora mais
consciente do que o rodeava, agora com mais vontade de não ser o que o rodeava.
Entretanto, escreveu, eu fui lendo… Escrevia um filho, de um filho que nunca me
pertenceu.
Era eu quem decidia
esses cem abrigos em que me deitava, julgava sempre algo hediondo esse retrato
que me fustigava de lágrimas. A proximidade à matéria é uma faca que fere a
carne, sentia necessidade em não me chocar, embora soubesse que ia torcer a
garganta a cada vez que lesse aquilo. Senti o poder da sua escrita nesse
momento. Agora crescia, eu era uma criança orgulhosa daquilo que criei.
A sua maturidade
foi comprometendo a escrita, não que fosse mau, mas a necessidade em
experimentar, em diversificar, em relatar tudo de todas as perspetivas, com
todas as valências, com todas as vontades era maior, mais aguerrida e mais
preocupante. Por momentos, quem era ele? Seria o filho que de mim fugiu, ou o
filho que em mim encontrei? Não sabia, meu filho, digo-te; não sabia.
E daí nasceste, como
hoje, comigo e com todos os outros homens e mulheres que te preenchem. Sempre
me disseste: “são tantos, que parece que sou só eu.” E eu ria, não por piedade,
mas porque no fundo somos sempre isso. E sou sempre isso, embora contigo,
sempre achasse necessário não sê-lo.
Agora escreves uma
obra, contas a história mais afiada que me preenche, foges de tudo aquilo que
não querias ser e tornas-te, por fim, no reflexo da alma que juntos procurámos
e criámos; esse foi o nosso maior mundo. Esse é o nosso maior mundo!
A cidade de cartão
mais decrépita dos homens, com o sujeito mais dissociado que fugiu de nós e a
vontade, mais humana que o próprio homem, em ser esse extremo que contas, sem julgá-lo,
apenas entendê-lo. Ver aquele homem de quem ninguém ousa escutar um grito.
Por ventura,
poderemos sê-lo se as vestes se dilacerarem em copos, bêbados, que se vão
bebendo em desalento.
Cuida-te, meu filho.
Prof. Doutor Álvaro Moniz Ribeiro. Para os amigos, apenas professor doutor, minúsculo.
"
Aquele.

1 comentários:
Senhor Daniel Xavier Lopes, permita-me concordar com as palavras do Senhor Professor e partilhar o agrado que está a ser ler essa sua obra.
Bem haja!
MR
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